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A longevidade contra o ageísmo

Veteranos dão prova de que a idade não é barreira para realizar sonhos

21 de Agosto de 2020 - Saúde e bem-estar

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“Há quem diga que eu não sei de nada, que eu não sou de nada” – diz o trecho da música Eu Quero é Botar o meu Bloco na Rua, carro-chefe do mais recente show de Ney Matogrosso, que vinha mantendo casas cheias por onde passava, até ser interrompido pela pandemia do coronavírus. A frase bem que serviria de bordão para idosos, que a todo instante têm que provar o seu valor. Na mesma música, o personagem reage anunciando que pretende botar o bloco na rua, e convoca para o grande encontro geracional: “eu quero todo mundo nesse carnaval”.

Bloco_na_rua_Rita_Vicente.jpgDivulgação/FUNCEF

Aos 79 anos, Ney está tão performático quanto aquele que escandalizou o país nos anos 70, quando liderava a banda Secos e Molhados. Desta vez, ele choca novamente por conseguir requebrar, agachando e levantando rapidamente, a esta altura da vida. “Ainda ontem uma mulher se espantou: ‘mas como você consegue abaixar e levantar assim?’ Eu não tenho explicação. Acho que é porque eu faço ginástica diariamente. Quando eu não puder mais abaixar e levantar como faço hoje, eu poderei fazer outras coisas”, disse ele em uma das muitas entrevistas em que tem sido obrigado a responder sobre a velhice.

A atriz Fernanda Montenegro também deu um espetáculo de energia e força vital ao celebrar os seus 90 anos em plena atividade, no palco e no cinema e com muitos projetos.

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Divulgação/FUNCEF

Em Brasília, a bailarina Norma Lillia Biavaty, que fez história ao trazer para a capital brasileira a primeira Academia de Dança Clássica, até tentou se aposentar.  “Pensei em viajar, em buscar mais lazer. Mas isso durou pouco, não consigo parar de trabalhar”, conta Norma. Após fechar a escola, que durou 58 anos, ela está prestes a inaugurar sua nova academia, tão logo o país esteja fora de perigo da Covid-19. Por causa da pandemia, a inauguração, inicialmente prevista para março deste ano, teve que ser interrompida. A solução que encontrou foi aderir às novas linguagens e abriu o seu canal no YouTube. O momento agora é de ficar em casa, não há possibilidades de abrirmos fisicamente. Por isso, abri o canal no YouTube com aulas, comentários e vídeos de espetáculos”.

Estas histórias de artistas e celebridades que resistem ao tempo e não se escondem são a face mais visível de uma revolução que se dá no cotidiano das sociedades, em que idosos dão provas do quanto são capazes.

Apesar dessas situações se multiplicarem, ainda provocam espanto geral. “Pesquisas comprovam que pessoas com 50 anos ou mais se sentem cobradas de se aposentarem”, aponta a gerontóloga Leides Barroso Azevedo Moura, autora do livro Longevidade e Dignidade. Ela conta que, ao contrário da juventude, marcada pelo “já”, a pessoa na velhice é cercada pelas indagações do “ainda” nas suas relações sociais. “Esta é a pergunta mais comum ouvida por um idoso: você ainda está trabalhando? você ainda está neste lugar? Ainda pretende estudar?”, como se estar nessa situação fosse algo ruim. “O desafio que se tem hoje é de construir uma nova linguagem, que seja mais inclusiva e que considere o idoso como cidadão digno de todo respeito”, comenta.

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Divulgação/FUNCEF

A gerontóloga acredita que a humanidade reage a passos lentos à grande novidade do século, que a fez mais longeva, mas insiste no vício cultural do ageísmo, o preconceito em função da idade.

Cobrada nas redes sociais por ter chegado aos 60 com o mesmo visual e comportamento, a cantora Madonna tem travado uma campanha contra o ageísmo. "As pessoas tentam me colocar para baixo porque eu namoro homens mais jovens ou continuo fazendo coisas que são consideradas permitidas só para mulheres jovens. Mas quem fez essas regras? Estou sendo punida por completar 60 anos", disse ainda em 2018, ao lançar a sua coleção de produtos de beleza.

“O ageísmo é uma caricatura da pessoa a partir de um conceito equivocado e discriminador do idoso como incapaz, incompetente, dependente, que perdeu o seu protagonismo na sua própria história e da sociedade. É um equívoco, porque as pessoas não perdem suas competências só porque se tornam idosas”, define Leides, pesquisadora do Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares (CEAM) da UnB.

“As barreiras produzidas pelo ageísmo removem as grandes conquistas e as grandes vantagens de viver longamente. É como se elas fossem sequestradas por essa violência sistêmica e contumaz no cotidiano da pessoa idoso”.

Uma das formas mais expressivas do ageísmo é praticada pelo próprio idoso, que ou se auto destrói ou “não se reconhece como idosa, criando uma espécie de bipolaridade”, conforme explica a gerontóloga. “As pesquisas mostram que se reduz em sete anos o tempo de vida de uma pessoa por não se esperar nada dela. Se não existe um espaço para ela e ninguém espera que ela possa produzir algo novo, trazer novas histórias e soluções para os problemas da família, ela vai corresponder a esta expectativa”, acrescenta.

Norma Lillia que, assim como Ney Matogrosso, consegue fazer os dedos das mãos encontrarem os dos pés com facilidade, diz que a receita para viver bem até o fim é resistir e não parar. “Enquanto tivermos vida e vontade de viver, o que temos que fazer é não parar. Nem deixar que os outros nos parem. Por que querem nos parar”?

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Comunicação Social da FUNCEF