Carta do gestor FUNCEF
Carta de Gestão de Investimentos 003 -
1º semestre de 2026
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A Missão Continua
Olá, participante!
Quem acompanha o lançamento de uma missão espacial de longa duração costuma prestar atenção ao momento em que o foguete deixa o solo. É o instante mais visível, que rende as imagens marcantes e ocupa as manchetes do dia.
Mas os engenheiros responsáveis pela missão sabem de algo que normalmente não aparece nessas imagens: o sucesso de uma jornada longa não depende do lançamento, e sim das milhares de pequenas correções de trajetória feitas durante todo o caminho, quase sempre sem que ninguém perceba.
Nenhuma espaçonave segue exatamente a rota calculada no papel. A física real do espaço interfere. Temos a gravidade de outros corpos, pequenas variações de propulsão e um ambiente que muda mais rápido do que qualquer plano inicial previu.
O que garante que a missão chegue ao destino não é a ausência desses desvios. É a existência de instrumentos capazes de identificá-los e de critérios para corrigir a rota sem nunca perder de vista o destino pretendido.
A Missão continua. O título se inspira no espírito da atual geração de programas espaciais de longa duração, que não se medem por um único evento espetacular, mas pela disciplina de recalcular, ajustar e seguir, ano após ano, rumo a um destino que não muda.
No primeiro semestre de 2026, o ambiente ao redor dos investimentos mudou mais de uma vez, e mudou rápido. Convidamos você a acompanhar quais foram essas mudanças, que correções fizemos diante delas, e como cada um dos planos da FUNCEF, com suas fases e objetivos próprios, seguiu rumo ao seu futuro.
O ambiente: quando a gravidade muda de lugar
No primeiro semestre, uma mudança de comando no banco central mais importante do mundo alterou as condições sob as quais todos os investidores do planeta calculam suas rotas.
A saída de Powell e a chegada de Warsh ao FED (Federal Reserve) não foi apenas uma troca de nome à frente da instituição, e sim uma mudança na forma como a autoridade monetária americana reage a choques na economia, mais disposta a tolerar oscilações de curto prazo em nome de manter a inflação sob controle no longo prazo.
Para o mercado financeiro global, isso equivale a um corpo celeste que muda de posição: ninguém errou a rota, mas todo mundo precisa recalculá-la, porque o campo de forças mudou.
Esse novo campo de forças afeta o custo do dinheiro no mundo inteiro, e o Brasil sentiu isso de forma direta. Vale seguir essa cadeia com calma, porque ela explica boa parte do que aconteceu na bolsa de valores brasileira no semestre.
Os instrumentos: a leitura correta faz a diferença
Quando os juros americanos sobem em relação ao que se espera dos juros no Brasil, investir aqui fica relativamente menos atraente, e o capital estrangeiro que havia entrado no país tende a sair em busca de melhores condições em outros lugares.
Foi exatamente esse movimento que vimos no fim do semestre. Depois de um primeiro trimestre de entrada relevante de capital estrangeiro na bolsa, atraído por um diferencial de juros bastante elevado, junho trouxe uma saída expressiva, acompanhada de desvalorização do real e queda do Ibovespa, principal índice da bolsa, no trimestre.
A mesma força que empurrou a espaçonave para frente atuou, semanas depois, na direção contrária. Isso não é sinal de rota errada. É a física natural do sistema, e um bom lembrete de por que decisões de investimento de longo prazo não deveriam se apoiar no resultado de um único mês.
Um segundo movimento do semestre merece atenção especial, porque ilustra bem o que significa corrigir a rota com base na leitura correta dos instrumentos e não em reação por impulso. Uma guerra no Oriente Médio pressionou o preço do petróleo, e isso elevou a inflação brasileira por semanas seguidas. A reação mais óbvia, quase automática, seria subir os juros para conter os preços.
Mas o Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central), avaliou que aquela pressão inflacionária tinha origem externa e caráter temporário e optou por reduzir a taxa básica de juros (Selic) mesmo com a inflação em alta.
Foi uma decisão do tipo que só se confirma acertada mais adiante, e o arrefecimento do conflito ao longo do semestre deu razão a essa leitura. Essa decisão, silenciosa e discutida quase só em círculos técnicos, foi o que sustentou o diferencial de juros que atraiu capital estrangeiro no primeiro trimestre.
No mesmo período, uma disputa jurídica nos Estados Unidos sobre tarifas comerciais ocupou manchetes no mundo inteiro por semanas, mas teve efeito bem mais discreto sobre os preços dos ativos financeiros do que essa decisão de rotina do Copom.
A lição vale para qualquer investidor: o que rende manchete nem sempre é o que move o mercado, e o que move o mercado nem sempre rende manchete.
A órbita: a trajetória do capital estrangeiro
Enquanto esses dois movimentos de curto prazo se alternavam e os mercados globais de tecnologia testavam até onde a confiança em retornos futuros resiste a um custo de capital mais alto, uma força mais lenta e estrutural atuou de por baixo da superfície.
O Brasil não integra nenhum dos conflitos geopolíticos em curso e é fornecedor relevante de recursos naturais disputados por duas tendências globais de longo prazo: transição energética e corrida por infraestrutura de tecnologia.
Essa neutralidade, somada à dotação de recursos naturais, vem atraindo investimento estrangeiro de caráter estrutural, do tipo que não entra e sai com a mesma velocidade do capital de portfólio. É esse fluxo mais lento que funciona como piso sob a trajetória de curto prazo, sustentando a atratividade relativa do país mesmo nos meses em que o capital mais líquido decide sair.
Um lembrete antes de seguirmos
Assim como prestamos mais atenção ao lançamento do que às correções de rota, também tendemos, como investidores, a dar peso desproporcional ao que aconteceu nos últimos dias, esquecendo que um único mês raramente muda o destino de uma jornada progamada para durar décadas. Reconhecer essa tendência é parte da disciplina que a previdência complementar exige.
Três fases de uma mesma missão
Assim como uma missão espacial de longa duração não é um bloco único, mas uma sucessão de fases com objetivos distintos entre a decolagem e o pouso, a gestão dos investimentos da FUNCEF também se organiza em fases com propósitos diferentes.
Reunimos nossos planos em três grupos, segundo a natureza do compromisso que cada um precisa cumprir, e cada grupo navegou o mesmo semestre de um jeito próprio.
Novo Plano e
REB (ativos)
NAVEGAÇÃO ATIVA: AJUSTANDO A ROTA EM TEMPO REAL
Os planos de Contribuição Definida têm como objetivo construir o maior saldo possível para a aposentadoria de cada participante, o que exige exposição a ativos de maior risco e, por consequência, maior sensibilidade às turbulências de curto prazo que descrevemos acima.
É a fase da missão que exige mais correções de rota, porque é a mais exposta às variações do ambiente.
Durante o semestre, fizemos alguns reposicionamentos dessas carteiras, buscando manter o patamar de retorno esperado elevado reduzindo oscilações. Mais importante do que subir tanto quanto o mercado sobe é cair pouco quando o mercado cai.
Uma nave bem calibrada reserva sua capacidade de manobra para os momentos em que a correção realmente importa. São queles momentos de estresse de mercado, que exigem cautela, mas também costumam abrir boas oportunidades de compra, com ativos a preços mais baixos, algo que monitoramos de perto no semestre.
Composição da carteira
Essa combinação de disciplina e oportunidade aparece também na composição das carteiras. Cada classe de ativo cumpre um papel específico contribuindo para a diversificação.
É essa combinação de ativos com comportamentos diferentes entre si, e não a aposta em um único ativo vencedor, que sustenta o resultado desses planos ao longo do tempo.
Novo Plano e
REB (assistidos)
CRUZEIRO ESTÁVEL: QUANDO APARECE A ENGENHARIA DE LONGO PRAZO
Há fases de uma missão espacial em que o trabalho difícil já foi feito antes, e o que se vê é apenas o resultado de um planejamento bem executado.
É assim que funcionam o Novo Plano BD e o REB BD. Com a maior parte da carteira alocada em títulos públicos que serão mantidos na carteira até o vencimento (marcados na curva), esses planos foram pouco afetados pelas oscilações do semestre.
Isso não é obra do acaso, mas o resultado de uma estratégia de imunização construída ao longo dos últimos anos, pensada exatamente para operar bem em ambientes como o atual.
REG/Replan
SUPORTE DE VIDA DE LONGUÍSSIMA DURAÇÃO
Existe um tipo de missão em que sucesso não se mede por velocidade, mas por precisão acumulada ao longo de muito tempo. Trata-se da missão de garantir que os suprimentos durem exatamente até o encontro programado.
É essa a lógica que orienta a gestão do REG/Replan, plano com a maior parte dos participantes já aposentada, e cuja prioridade é entregar, mês a mês, os benefícios prometidos.
Previsibilidade nos resultados
O casamento entre o fluxo de recebimento dos ativos e o fluxo de pagamento de benefícios, segue sendo nossa prioridade nesses planos. Na prática, isso significa que o dinheiro que entra na carteira, mês após mês, chega quando é preciso pagar os benefícios de quem já está na aposentadoria.
Esse alinhamento traz outro benefício igualmente relevante: a maior previsibilidade dos resultados de investimentos vem construindo a rota, de forma gradual, para reduzir o déficit e aliviar as condições do equacionamento desses planos.
O planejado tem se concretizado mês após mês. Como uma missão de longuíssima duração, imprevistos acontecem, mas os sistemas de suporte seguem funcionando como projetado.
Perspectivas: mantendo os instrumentos calibrados
O ambiente atual deve se manter no segundo semestre. O campo de forças inclui uma nova função de reação do banco central americano ainda sendo testada pelo mercado, incerteza fiscal no Brasil e fragmentação geopolítica, que segue redesenhando para onde o capital global decide fluir, ou seja, o mercado externo é uma oportunidade de proteção (hedge) e de geração de valor.
Nenhuma dessas forças é, isoladamente, motivo de alarme. Juntas, elas reforçam algo que vale para qualquer missão de longa duração: o ambiente vai continuar mudando, e a estratégia de longo prazo precisa estar preparada para se ajustar.
Novo Plano e REB CD
Para os planos com características de Contribuição Definida, seguiremos buscando o equilíbrio entre proteção e retorno, aproveitando com disciplina as oportunidades que os momentos de maior volatilidade costumam abrir.
Toda missão de longa duração amadurece assim: primeiro se consolida a operação no território mais próximo, depois se amplia o alcance. E há boas razões para isso.
Outros solos guardam recursos que o nosso, sozinho, não oferece. Por exemplo, parte relevante da infraestrutura por trás da nova onda de inteligência artificial se constrói em terreno distante do nosso, e em algumas órbitas as condições de propulsão seguem mais favoráveis do que as daqui, com juros reais altos o suficiente para valer a viagem.
Não se trata de abandonar o território que já dominamos, e sim de estender o alcance da missão até onde também existe valor a ser capturado, com a mesma disciplina que trouxe os planos até aqui.
REG/Replan, Novo Plano e REB BD
Para os planos com características de Benefício Definido, seguiremos priorizando a previsibilidade, o casamento entre ativos e passivos, e a entrega pontual dos benefícios que sustentam o presente de quem já chegou à aposentadoria.
Nenhuma missão de longa duração é definida pelo lançamento. É definida pela soma de todas as correções feitas ao longo do caminho, e pela disciplina de nunca perder de vista o destino. Seguimos de olho nos instrumentos, prontos para ajustes de rota.
A missão continua, e o destino é o seu futuro.
DIRETORIA EXECUTIVA DA FUNCEF